Você abre o celular sem pensar muito. Passa por algumas fotos, vê alguém viajando, comprando uma casa, começando um trabalho novo ou comemorando alguma conquista.
Até aí, tudo bem.
Só que, em poucos segundos, você já não está mais olhando para a vida daquela pessoa. Está olhando para a sua.
“Eu deveria estar mais longe.”
“Parece que todo mundo está avançando menos eu.”
“O que eu fiz durante todo esse tempo?”
A comparação costuma acontecer rápido assim. Você não senta e decide analisar se sua vida está melhor ou pior do que a de alguém. Simplesmente vê alguma coisa e, quando percebe, já está fazendo contas que quase nunca são justas.
Por isso, parar de se comparar com os outros não depende simplesmente de decidir que nunca mais vai fazer isso. Provavelmente você ainda vai se comparar algumas vezes.
A diferença está no que acontece depois.
Você pode alimentar aquela comparação durante horas ou aprender a perceber quando ela começa, questionar a régua que está usando e voltar a atenção para a sua própria vida.
Algumas atitudes ajudam bastante nesse processo.
1. Perceba quando a comparação começa
Antes de tentar parar de se comparar, vale descobrir quando você mais faz isso.
Porque geralmente existe um gatilho.
Pode ser abrir o Instagram antes de dormir. Encontrar alguém que você não via há anos. Ouvir um amigo falar sobre salário. Descobrir que alguém da sua idade se casou, abriu uma empresa ou comprou um apartamento.
Às vezes é uma coisa aparentemente pequena.
Imagine que você está olhando o celular e encontra uma publicação de um antigo colega da faculdade contando que recebeu uma promoção. Você fica feliz por ele durante alguns segundos.
Logo depois aparece:
“Eu também já deveria estar nesse nível.”
É aí que a comparação começou.
Uma maneira simples de identificar esses momentos é prestar atenção naquela sensação de estar “atrasado”. Quando ela aparecer, tente lembrar:
O que aconteceu nos últimos minutos para eu começar a me sentir assim?
Talvez você perceba que certos perfis, assuntos ou situações quase sempre levam sua cabeça para o mesmo lugar.
Conhecer esses gatilhos não impede a comparação de aparecer, mas torna muito mais fácil interrompê-la antes que ela tome conta do resto do dia.
2. Separe o que aconteceu da história que você contou sobre isso
Alguém da sua idade comprou uma casa.
Isso é um fato.
“Todo mundo está conseguindo construir alguma coisa e eu estou ficando para trás.”
Isso já é uma interpretação.
Parece uma diferença pequena, mas não é.
Nossa cabeça consegue transformar uma informação sobre a vida de outra pessoa em um julgamento sobre a nossa própria vida numa velocidade impressionante.
Alguém anuncia que vai se casar e você pensa no seu relacionamento.
Um amigo consegue um emprego melhor e você começa a questionar sua carreira.
Uma pessoa viaja e, de repente, sua rotina parece sem graça.
O problema é que uma coisa não necessariamente diz nada sobre a outra.
A conquista daquela pessoa continua existindo, mas ela não é uma prova de que você fracassou.
Quando perceber esse movimento, tente separar mentalmente:
O que eu realmente sei?
e:
O que estou concluindo sobre mim a partir disso?
Muitas vezes, a parte que machuca não está no fato. Está na história que você criou depois dele.
3. Veja se você não está comparando duas coisas completamente diferentes
Existe uma comparação especialmente injusta que fazemos o tempo inteiro: nossa vida inteira contra um momento da vida de alguém.
Você conhece suas dúvidas, suas contas, seus erros, suas inseguranças, seus domingos ruins e aqueles dias em que parece que nada está dando certo.
Da outra pessoa, talvez você tenha visto uma foto.
Ou uma notícia.
Ou quinze segundos de um vídeo.
Mesmo assim, sua cabeça coloca as duas coisas lado a lado como se tivesse informações suficientes para concluir quem está melhor.
Nas redes sociais isso fica ainda mais evidente, mas acontece fora delas também.
Você pode olhar para alguém que está há dez anos em determinada profissão e se sentir mal porque ainda não chegou ao mesmo lugar depois de dois.
Ou comparar sua situação financeira com a de alguém sem saber praticamente nada sobre o ponto de partida, as oportunidades, as responsabilidades ou até as dívidas dessa pessoa.
Quando perceber que está se comparando, vale perguntar:
Eu realmente estou comparando situações equivalentes?
Muitas vezes, a resposta é não.
4. Descubra se você realmente quer aquilo que despertou a comparação

Essa pergunta muda muita coisa.
Porque nem tudo aquilo que desperta inveja ou comparação é algo que você realmente gostaria de ter.
Às vezes alguém compra um carro caro e você sente aquele incômodo imediato. Mas, se pensar com calma, talvez carros nem sejam importantes para você.
Alguém assume um cargo de liderança e você sente que deveria estar crescendo mais profissionalmente. Só que talvez aquele cargo venha acompanhado de uma rotina que você jamais gostaria de ter.
É estranho, mas podemos nos sentir atrasados até em corridas das quais nunca quisemos participar.
Parte disso acontece porque absorvemos critérios ao nosso redor sem perceber.
Dinheiro. Cargo. Aparência. Casamento. Casa própria. Viagens. Número de seguidores. Idade para alcançar determinadas coisas.
Quando muita gente valoriza alguma coisa, fica fácil começar a tratá-la como se também precisasse ser importante para você.
Por isso, quando uma comparação incomodar, experimente perguntar:
Eu quero isso de verdade ou apenas não quero sentir que fiquei para trás?
As duas coisas parecem parecidas, mas levam para lugares completamente diferentes.
5. Reduza o contato com aquilo que faz você se comparar o tempo todo
Não precisa transformar isso numa guerra contra as redes sociais.
Mas também não existe prêmio por continuar consumindo algo que faz você se sentir mal todos os dias.
Se determinado perfil sempre deixa você questionando sua aparência, sua carreira ou sua vida, talvez não seja necessário acompanhar cada publicação.
Você pode silenciar.
Pode deixar de seguir.
Pode passar menos tempo naquela rede.
E nem precisa existir raiva ou ressentimento por trás disso.
Às vezes a pessoa não fez absolutamente nada de errado. O conteúdo apenas toca em alguma insegurança sua neste momento.
Isso também vale fora da internet. Existem conversas e ambientes em que tudo vira comparação: quem ganha mais, quem comprou o quê, quem está namorando, quem emagreceu, quem foi promovido.
Talvez você não consiga evitar completamente esses lugares. Mas pode perceber quanto espaço eles estão ocupando na sua cabeça.
Cuidar do que você consome também é uma maneira de cuidar daquilo em que você passa o dia pensando.
6. Compare sua vida com ela mesma de vez em quando
Quando você olha demais para os lados, perde a noção da distância que já percorreu.
A sensação de estar parado pode ser muito convincente quando o único ponto de referência é alguém que parece estar na sua frente.
Por isso, de vez em quando, olhe para trás.
Onde você estava há um ano?
O que preocupava você naquela época?
O que hoje consegue fazer que antes parecia difícil?
O que mudou na sua maneira de pensar, trabalhar ou se relacionar?
Nem todo progresso aparece em salário, cargo, relacionamento ou patrimônio.
Talvez você tenha aprendido a colocar limites. Saído de uma situação que fazia mal. Organizado melhor sua vida. Mudado de opinião sobre algo importante. Começado de novo depois de uma fase difícil.
Talvez ainda exista muito que você queira mudar.
Uma coisa não anula a outra.
Reconhecer o que já aconteceu não significa se acomodar. Significa apenas usar uma régua um pouco mais justa.
7. Troque “por que ele conseguiu e eu não?” por uma pergunta que leve a algum lugar
A comparação costuma produzir perguntas que não têm uma resposta muito útil.
“Por que ela conseguiu antes de mim?”
“Por que ele ganha mais?”
“Por que parece tão fácil para todo mundo?”
Você pode passar bastante tempo tentando responder e continuar exatamente no mesmo lugar.
Quando perceber isso, tente mudar a pergunta:
Existe alguma coisa nessa situação que eu também gostaria de construir?
Se a resposta for sim, a comparação pode fornecer uma pista.
Talvez você tenha percebido que quer melhorar profissionalmente, cuidar melhor das finanças, viajar mais ou finalmente começar um projeto que vem adiando.
Então a pergunta seguinte deixa de ser sobre a outra pessoa:
Qual é o próximo passo que eu consigo dar na minha vida?
Às vezes, porém, a resposta será não.
Você percebe que não quer aquela carreira, aquela rotina ou aquele estilo de vida. Apenas sentiu que deveria querer porque viu outra pessoa conquistando.
Isso também é uma descoberta importante.
Nem toda comparação precisa virar motivação.
Algumas só precisam terminar ali.
8. Não transforme o fato de ter se comparado em mais um motivo para se criticar

Depois de entender como a comparação funciona, existe uma armadilha curiosa: começar a se julgar toda vez que ela aparece.
“Eu não deveria estar sentindo isso.”
“Por que ainda me comparo?”
“Achei que já tinha superado isso.”
Só que comparar-se com outras pessoas é algo bastante humano. Usamos quem está ao nosso redor como referência para entender posição, progresso, pertencimento e uma série de outras coisas.
O objetivo provavelmente não é chegar a um ponto em que você nunca mais vai olhar para alguém e pensar na própria vida.
É fazer com que esse pensamento tenha menos poder.
Você percebe a comparação, entende o que despertou aquilo e decide se existe alguma informação útil ali.
Se não existe, deixa passar.
Talvez amanhã aconteça novamente.
Tudo bem.
Um hábito que levou anos para se formar dificilmente desaparece porque você leu um artigo ou tomou uma decisão numa segunda-feira à noite.
Ele perde força aos poucos.
Como parar de se comparar nas redes sociais?
Se você percebe que a maior parte das comparações acontece no celular, talvez valha observar menos o tempo total que passa nas redes e mais como você se sente depois de usá-las.
Existem perfis que você fecha e continua normalmente.
Outros deixam uma sensação estranha de que sua vida deveria ser diferente.
Essa diferença diz alguma coisa.
Você não precisa deixar de seguir todo mundo que tem algo que você deseja. Também não precisa fugir de qualquer desconforto.
Mas pode escolher melhor aquilo que aparece diante de você todos os dias.
Silenciar determinados perfis por um período, evitar abrir redes sociais quando já está vulnerável ou simplesmente diminuir o hábito de ficar rolando o feed sem perceber podem fazer mais diferença do que parece.
Principalmente porque a comparação precisa de matéria-prima.
Quanto mais você oferece, mais trabalho terá para lidar com ela depois.
Por que eu me comparo tanto com os outros?
Nem toda comparação vem do mesmo lugar.
Em alguns momentos, ela pode revelar insegurança. Em outros, insatisfação com alguma parte da própria vida. Também pode surgir porque você está cercado de referências que fazem parecer que existe uma idade, um ritmo ou uma maneira correta de viver.
E existem comparações que simplesmente aparecem.
Por isso, em vez de procurar uma única explicação para “por que eu me comparo tanto?”, talvez seja mais útil observar com quem você se compara e em quais assuntos.
Você se compara principalmente profissionalmente?
Na aparência?
Nos relacionamentos?
No dinheiro?
Na idade em que outras pessoas alcançaram determinadas coisas?
Os padrões costumam dizer mais do que a comparação isolada.
Talvez exista ali alguma insegurança que merece atenção. Ou talvez você descubra que está tentando alcançar uma expectativa que nem escolheu conscientemente.
Você não precisa ganhar a corrida de outra pessoa
É difícil olhar para a própria vida sem usar ninguém como referência.
Sempre haverá alguém mais novo que conseguiu algo antes, alguém ganhando mais, viajando mais, aparentemente mais seguro ou vivendo uma fase que você gostaria de estar vivendo.
Se a sua régua estiver sempre do lado de fora, dificilmente haverá um ponto de chegada.
Porque, quando você alcançar aquilo que hoje parece suficiente, provavelmente aparecerá outra pessoa um pouco mais à frente.
Parar de se comparar com os outros não significa deixar de admirar pessoas, aprender com elas ou desejar coisas novas.
Significa apenas não transformar cada conquista alheia em uma avaliação da sua própria vida.
Você pode olhar para alguém e pensar:
“Isso é interessante. Talvez eu queira construir algo parecido.”
Sem precisar completar:
“E o fato de eu ainda não ter isso significa que estou atrasado.”
No fim, talvez uma comparação mais útil seja bem menos chamativa.
Olhar para quem você era algum tempo atrás, perceber o que mudou e perguntar:
“Qual é o próximo passo que faz sentido para mim?”
Não para alcançar alguém.
Só para continuar a sua própria vida.